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Out 08

'Já recebi prémios que não merecia'

Por trás da impensável, patética e risível personagem do ‘Chato’ dos ‘Contemporâneos’ está um actor que decidiu escolher a arte para esconder a timidez. Diz que não é pessoa de andar por aí a dizer piadas e que alguns dos prémios que ganhou no estrangeiro nem foram merecidos. ‘Vai mas é trabalhar...’

 

O ‘Chato’ é uma das personagens que tem marcado os ‘Contemporâneos’. Esse ‘Chato’ é inspirado em alguém?
Na voz sim. Conheço uma pessoa que tem o mesmo problema de voz do ‘Chato’ (risos).
Quem?
É um anónimo que ninguém conhece. Só eu. Inicialmente, o ‘Chato’ era para ser uma personagem arrogante, mas depois chegámos à conclusão de que o melhor era estupidificá-lo. Por isso, um dia propus essa voz aos produtores do programa. Não seria credível que uma pessoa arrogante se metesse com o Pacman sem levar um ‘pêro’ (risos). Por isso, criámos um maluquinho que é aquela pessoa de que todos têm pena e que deixam falar. Graças a esta voz, o ‘Chato’ ficou uma personagem mais risível e menos violenta.  
‘Vai mas é trabalhar...!’ é uma daquelas frases que já virou um must popular. Saiu de improviso ou foi pensada?
Embora o sketch do ‘Chato’ dê muita liberdade de improviso, essa frase já vinha, de facto, do conceito original.
Quem é que gostava de mandar trabalhar?
Tenho uns na calha (risos). Gostava de me meter com o Nélson Évora. Já estamos em contacto com ele.
Porquê o Nélson Évora?
Porque a personagem do ‘Chato’ é assim mesmo, chateia pessoas que não merecem ser chateadas, como anões, idosos, deficientes, bebés ou figuras que são autêntico ícones, como a Vanessa Fernandes ou o Pacman. Como os Jogos Olímpicos transformaram o Nélson Évora num novo ícone, acho que o sketch podia resultar muito bem.
E mandar trabalhar um político não vos passa pela cabeça?
Nós adorávamos, mas qual é o político que vai aceitar o convite (risos).
De entre a classe política, gostava de ter algum convidado especial?
Não sei, mas gostava de ter os membros mais activos, aqueles que as pessoas vejam que trabalham mesmo (risos).
O José Sócrates seria o ideal?
O Sócrates era magnífico... E daí não sei se resultaria, porque acho que a maioria das pessoas era capaz de gostar de gozar com o Sócrates (risos).
Pelo facto de gozar com pessoas completamente insuspeitas que não merecem ser gozadas, já teve alguma reacção negativa na rua?
Não. Curiosamente já tive anões a vir ter comigo a dar-me os parabéns e a Vanessa Fernandes adorou o sketch dela.  
Os ‘Contemporâneos’ estão a corresponder ou a superar as suas expectativas?
Tenho um prazer enorme em trabalhar com este grupo e com as Produções Fictícias, e nesse sentido as minha expectativas não saíram goradas. Mas na primeira série cometemos alguns erros que estamos agora a tentar corrigir.
Como por exemplo?
Acho que a primeira série talvez tenha pecado um pouco pelo 'non sense' e às vezes pelas 'private jokes'. Aquilo que estamos a tentar agora nesta segunda série é criar um programa mais perto do público e, sobretudo, mais actual.
Que balanço faz da sua participação no programa?
Os ‘Contemporâneos’ marcam o meu regresso à TV, eu que já não fazia televisão desde a minha última novela no Brasil, há seis anos. Confesso que já tinha saudades de fazer humor. A minha primeira experiência foi no ‘Programa da Maria’, que depois me levou ao Herman José, mas desde então nunca mais me tinha aparecido nenhum projecto interessante. É com um enorme prazer que tenho feito parte dos ‘Contemporâneos’. Temos um ambiente de trabalho fantástico, mas fazer humor é mais complicado do que parece. É preciso muita preparação.
É mais difícil fazer comédia do que fazer drama?
Não sei se é mais difícil, o que sei é que no drama exalta-se sobretudo a qualidade de personagem e na comédia é ao contrário, exaltam-se os defeitos. Por isso, uma personagem boa tem de ser tão boa a ponto de se tornar risível. Isto quer dizer que se no drama não se atingir o ponto certo a coisa funciona na mesma. Na comédia não, ou funciona a cem por cento ou não funciona.
Para fazer humor é imperativo que o actor seja naturalmente uma pessoa bem-disposta?
Não. É necessário que o actor tenha um grande sentido de humor, isso sim.
E no seu caso?
Não sou um tipo bem-disposto. Não sou daquelas pessoas de chegar a um jantar de amigos e começar a dizer piadas. E depois também não há muita gente que me consiga fazer rir.
É tímido?
Muito, embora já não seja tanto! Actualmente, estou muito melhor, mas mesmo assim, se estiver num jantar com pessoas que não conheço, não abro a boca.
O que é que o tira do sério?
Tudo o que tenha a ver com invasão de privacidade, como o programa ‘Momento da Verdade’, da Teresa Guilherme. Chateia-me olhar para a programação televisiva e ver que de manhã à noite há um aproveitamento enorme das emoções rascas e baratas.
Qual é o seu maior vício?
Neste momento é pôr música. Ponho em vários sítios de Lisboa e Porto, dependendo das gravações.
Já foi premiado cá, no Brasil, na Alemanha. Isso conferiu-lhe algum tipo de estatuto?
Não. Nada mudou para mim e não trocaria um trabalho pelos prémios todos que recebi na vida. Até já recebi prémios que achava que não merecia.
As pessoas que se habituaram a vê-lo na TV provavelmente desconhecem que o Nuno tem uma enorme experiência em teatro. Foi a sua grande escola?
A grande vantagem do teatro é ser o local no qual o actor consegue ser rei e senhor, ao contrário da televisão e cinema, onde existem os produtores, encenadores, etc... O teatro ensinou-me muitas coisas, mas também aprendi muito em cinema e televisão.
É verdade que tem formação em canto e dança?
Em canto não, embora tenha tido algumas bandas de garagem onde tocava guitarra e cantava. Em dança já fiz alguns espectáculos de teatro dançado e gosto muito.
De onde vem esta veia artística?
Quando era puto, eu queria ser cinematógrafo marítimo como o Cousteau. Mas depois desisti da ideia. Como era muito, muito tímido e quase não tinha amigos por ser muito fechado sobre mim mesmo, percebi um dia que tinha de arranjar maneira de me expressar artisticamente. Uma dia fui assistir a um sarau onde a minha irmã dançava na Junta de Freguesia de Benfica e vi o António Feio a apresentar uma peça com uns miúdos. Nesse mesmo momento achei que era capaz de fazer aquilo.
Que idade tinha?
Uns treze anos. Nessa altura já tinha algumas influências dos programas do Herman e fazia umas brincadeiras, mas só em família, porque não tinha coragem de fazer isso fora. Entrei então para o curso do António Feio, que foi fundamental no meu percurso. Foi ele a pessoa com que percebi que era isto que eu queria fazer.
A sua família não tinha nada a ver com as artes?
Não.
E como é que eles vêem a sua profissão?
Com a preocupação natural e constante de saber que a arte é uma profissão instável. No início tentaram convencer-me a tirar um curso, mas quando perceberam que era isto que eu queria fazer desistiram. Com esta profissão ainda bem que não tenho família dependente de mim, porque não tenho qualquer tipo de garantia. Ainda assim não me posso queixar. Tenho muito trabalho e vejo colegas meus, com muito mais talento, que estão no desemprego há anos.
Aos 30 anos, o que gostava que o futuro lhe reservasse?
Gostava de me continuar a sentir desafiado, só isso.
Como ficou a sua relação com o Brasil, depois da novela que fez lá?
Tenho uma relação excelente. Ainda este Verão estive lá de férias. E alguns dos meus melhores amigos estão lá.
Nunca mais surgiu hipóteses de trabalhar no Brasil?
Sim. Já tive vários convites, mas nunca aceitei porque foi naquele período em que decidi parar de fazer televisão durante uns tempos.
Projectos para o futuro?
Passam pelo teatro, até porque vou fazer uma peça na Cornucópia, que é a ‘Tempestade’, de Shakespeare.

REFLEXO

O que vê quando se olha ao espelho?
Há dias em que vejo uma pessoa que gostava de conhecer e há outros em que vejo uma pessoa que não quero ver tão cedo.
Geralmente gosta do que vê?
Nem sempre. Depende mesmo do dia (risos).
Alguma vez lhe apeteceu partir o espelho?
Muitas vezes.
Quais?
Aquelas em que não me orgulhei de decisões que tomei ou coisas que fiz.
Quem é que gostaria de ver reflectido no espelho?
Na verdade gosto de ver os meus defeitos e, por isso, às vezes não me faz confusão de, de vez em quando, olhar para o espelho e odiar-me.
Quem é a sua grande pessoa de referência?
O Jacques Cousteau.
Porquê?
Porque é uma pessoa que escolheu uma maneira de vida que era a sua e que levou até ao fim, apesar de tudo. Ele perdeu o filho no mar e continuou.
Um momento marcante da sua vida?
Nunca me esquecerei de um espectáculo que tive que parar a meio porque me deu um ‘ba-dagaio’. Andava a trabalhar a mais e a dormir a menos. As pessoas tiveram de ser todas reembolsadas.
Qualidade e defeito?
O perfeccionismo, simultaneamente.

Miguel Azevedo

in Correio da Manhã, 11 de Outubro de 2008

link da entrevista aqui


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