Premiado com o Globo de Ouro em 2006, Nuno Lopes, 30 anos, nem precisava do galardão para ser consensualmente considerado o melhor actor português da sua geração. Basta ver o filme "Alice" de Marco Martins, ou, num outro registo, "Os Contemporâneos".

 

Em tempos de crise, o bobo é o que diz sempre as verdades?
Depende do bobo. No caso de “Os Contemporâneos”, mais do que dizer as verdades, tentamos apontar as mentiras.  

Dizer a verdade na RTP ainda é fazer serviço público ou é um desporto radical?
Felizmente, não temos tido qualquer tipo de censura… 

O seu personagem de “Os Contemporâneos” diz sempre o mesmo: “Vai mas é trabalhar”. Essa é a verdade para o país?
A crítica é para aquelas pessoas que mandam os outros trabalhar quando elas próprias não fazem nenhum. E sim, existe muito disso no país.

Esta semana faltaram quase 50 deputados na Assembleia da República, 30 dos quais eram do PSD. O parlamento seria um bom lugar para esse seu sketch?
Não, porque eu mando trabalhar aquelas pessoas que nós, sociedade em geral, achamos que não merecem ser mandadas trabalhar. No Parlamento, eu teria dificuldade em  encontrar pessoas que não quisesse mandar trabalhar.  

Nesse caso, conseguiria elegir alguém como alvo?
Teria que ser alguém que realmente trabalhasse, o que seria difícil. Mas tenho esperança de que haja três ou quatro. Serão seguramente menos conhecidos.

Se os deputados não tivessem faltado, poderia ter sido aprovado o projecto do CDS-PP que recomendava ao Governo a suspensão da avaliação dos professores. É solidário com a luta dos docentes?
Sou solidário porque não considero que o método de avaliação proposto seja bom.  

Mas os professores são os úncos profissionais que conhece que têm que ser avaliados, que levam trabalho para casa e cuja progressão poderá deixar de acontecer por mera antiguidade?
Aí é que está. Sou contra este método de avaliação; não sou contra a que avaliem os professores. Não se podem dar ao luxo de não serem avaliados, era o que mais faltava! 

Nunca teve vontade de lhes dizer para irem trabalhar em vez de fazerem suceder greves às greves?
A greve é um direito. Só seria contra a greve se os professores não quisessem ser avaliados.  

É DJ nas horas vagas. Também está solidário com os comerciantes do Bairro Alto, que agora fecha às duas horas, ou é mais sensível ao descanso das pessoas que vivem ali?
Moro no Bairro Alto e acho ridículo que os bares fechem às duas da manhã para descanso das pessoas. Isto é assim há anos e anos, quem vem para aqui sabe para onde vem 

António Costa será tramado por causa dessa decisão?
Isso não, porque infelizmente não vejo nenhum candidato da Oposição que seja melhor do que ele. Agora, é sem dúvida uma má decisão.  

Quem seria uma mais-valia para Lisboa: Roseta ou Santana?
Aí está, nenhum dos dois [risos]. Mas ninguém será pior do que o Santana Lopes.  

E no país: há substituto para José Sócrates?
Tem que haver alguém melhor do que ele para liderar o país, mas ele não tem Oposição. Infelizmente, nenhum partido parece ter um candidato a primeiro-ministro que seja digno, credível e melhor. Mas quero acreditar que existe. 

O “Contemporâneos” desceu em audiência e subiu em qualidade. Tem que ser sempre assim?
Eu não acredito nada  nas audiências. A maior parte dos programas que têm grandes audiências, eu não não gosto. Portanto, a minha única preocupação é mostrar ao público um programa que eu considero ser de qualidade.  

Para o país que temos o “Contemporâneos” é, como alguém disse, um programa extemporâneo?
É um programa que não atinge o público todo, mas também não quer atingir. É o nosso tipo de humor, a nossa visão sobre a sociedade. Se as pessoas conseguirem identificar-se com essa visão muito bem; se não conseguirem, não faz mal. Têm  outras coisas. 

O que o embaraça mais quando o abordam na rua: que lhe peçam para fazer um número qualquer ou que façam o número por si?
Embaraçado fico sempre, sou incapaz de fazer o que seja. Tenho vergonha. Normalmente são as pessoas que fazem.  

Quantas vezes por dia ouve: “vai mas é trabalhar”?
[Risos] Várias.  

Não o chateia ser um actor consensual no teatro, cinema e televisão?
Não acho nada que seja consensual, pelo contrário. Há muita gente que me odeia.